Nós do Orelha, adoramos rock’n’roll e eletrônica e a gente gosta mais ainda quando eles se encontram, o que tem sido, ainda bem, cada vez mais frequente. E nessa derrubada do muro entre esses dois estilos-irmãos (alguém ainda duvida?), a marretada definitiva vem da Austrália. Esse canto do mundo, em diagonal (inclusive geográfica) com a Escandinávia, também vive seu zeitgeist, já há uns bons dois anos. Tanto é assim que dois dos melhores álbuns saídos de lá em 2008, não são estréias e sim os temidos segundos discos. E no caso, superam os primeiros e estabelecem de vez a referida cena: estamos falando de In Ghost Colours, do Cut Copy e Apocalypso, do The Presets (felizmente lançados por aqui). Os primeiros gravaram aquele que pode ser considerado o Get Ready do fim da década. Quem não se lembra dessa incrível volta do New Order em 2001, deixando todo mundo de cara com sua atualidade e sintonia: álbum perfeitinho, sem faixas “desnecessárias”, de se ouvir várias vezes sem cansar. Assim é o último do Cut Copy, um delicioso passeio pelo synth pop, com referências dance, muitos ‘uh-uh’ e letras pra cantar em coro. O hit “Lights and Music”, por exemplo, tem aquele tipo de refrão irresistível, pra gritar na pista. “Hearts on Fire” e “Far Away” também moram em nosso coraçãozinho. E o vencedor do ARIA Music Awards de melhor álbum dance (derrotando justo quem? Cut Copy!), The Presets, com Apocalypso, mais eletrônico, não tem aquele típico encher de linguiça de muitos trabalhos do gênero – muitos ‘interlúdios’ para alguns hits. É coeso, e tampouco cai na armadilha da repetição. As faixas são diversificadas, a um tempo vigorosas e leves. Destacamos a premiada “My People”, a fofa “This Boy´s in Love” e a picotada “Talk Like That”. Outros indicados para o ARIA foram o duo Pnau, com o também ótimo segundo di
sco homônimo, contando com a participação da excelente neozelandesa (dando uma esticadinha…) Ladyhawke na soft “Embrace” e o Midnight Juggernauts, estes famosos pelo incrível remix-upgrade à faixa “I Get Around”, do Dragonette, incluído na estourada compilação Kitsuné Maison Vol. 1. Os caras surpreenderam com a estréia Dystopia, provando serem mais que bons produtores, assim como o Van She, que, depois de pencas de remixes, lançou álbum próprio, “V”, com menos brilho, mas ainda digno de nota. Aliás, atualmente, não se pode mais distinguir quem é produtor, quem é banda, quem é projeto… Só nesse recorte, por exemplo, Cut Copy já remixou The Presets e Midnight Juggernauts, que por sua vez, remixou… The Presets! Além disso, o vocalista do Pnau, Nick Littlemore, lançou seu projeto paralelo, a banda psicodélica a la MGMT, Empire of The Sun. Isso sem falar nos pródigos produtores Miami Horror, Bag Raiders, Damn Arms e o debochado Gameboy/Gamegirl. Temos ainda o queridinho ‘dumbo’ Muscles, de quem falaremos mais já, já. O círculo virtuoso não para de crescer, marcando de vez esse país-quase-continente no panorama dos grandes pólos de música criativa do mundo. Assim sendo, desejamos que continuem trazendo todo seu multiculturalismo com sabor tropical às nossas orelhinhas!
Gibran Teixeira
