O Orelha adora Erlend Oye e Whitest Boy Alive. Portanto, não perderíamos um show deles de jeito nenhum. No dia 11 último, estivemos no Jóquei para o Vale Open Air, evento no qual depois de dois filmes (ótimos, diga-se: Nova York, Te Amo e o novo do Woody Allen, Tudo Pode Dar Certo), a banda se apresentou: mais cosmopolita, impossível. Publicamos agora nossa cobertura do show, em esquema duplex, by Antonio e Gibran:
Antonio Kvalo diz:
Mash-up ao vivo é algo pelo qual todo mundo deveria passar nessa vida. Como se não bastasse o Whitest Boy Alive ser uma banda fofa e tocar maravilhosamente bem ao vivo, Erlend Oye nos surpreende a cada minuto. Imagine, só para começar, uma pista de dança formada por quatro músicos ótimos e seus instrumentos impecáveis. A bateria poderia ser eletrônica, mas é acústica; a guitarra é tocada em poucos acordes, e diz o que se quer ouvir, o baixo é contínuo e se faz peça fundamental para o som dos caras; e para fechar com chave de ouro o teclado é uma dádiva aos nossos ouvidos. Em pouco tempo de show você é capaz facilmente de dizer “seria o Daft Punk se fosse humano”, aí eles me jogam “Around the World” com a platéia acompanhando com coreografia.
E por falar em platéia, voltemos um pouco à ordem das coisas. O show (que era minha prioridade) fazia parte de um evento que contava também com dois ótimos filmes. Isso significa que tínhamos um público pelo menos interessante e interessado, talvez poucos realmente conhecessem a banda, mas deveria haver algum interesse. Era um misto de Vips, Globais, “gente de cinema”, moderninhos e modernetes casuais, as classes A e B carioca e outros (como nós) que tínhamos uma causa a cumprir: o show em si! Por conta disso, em certas músicas alguns entendiam que era Reggae e dançavam com aquela malemolência de “Jah”. Em outras era gritado “Tô na Rave!”, se dividiam em “louraça-psy-bota” versus “indie-all-star”. O mais legal é que o Whitest Boy Alive sabe comandar uma platéia (apesar dos longos textos à la Tim Maia) e consegue agradar a quase todos os ouvidos.
O show começou com “Keep a Secret”, e isso foi muito bom… Continuou com quase todas as suas músicas, afinal a banda só tem 2 discos. Era de se esperar que seria lindo, mas depois do cover do Daft Punk, a coisa começou a ficar tensa. Pelo menos pra mim, que esperava em cada introdução que ele fizesse eu me esbaldar com sua versão de “It´s a Fine Day” (hit chiclete de discoteca dos 90), lançada em seu Dj Kicks. Não foi desta vez, mas Oye não deixa por menos. No bis, ele quase mata a gente do coração. Simplesmente depois de cantar duas musicas, incluindo “Courage”, uma de suas melhores composições, ele me finaliza o show com “Show me Love”. Suficiente para um infarto!
Tudo flui muito bem na mão desses caras. Deixam de lado os rótulos e estilos pré fabricados para só, única e exclusivamente fazer música! E é disso que a gente precisa…
Gibran Teixeira diz:
Consegue imaginar um show em que o vocalista canta Tom Jobim (“Àguas de Março”),Vinicius de Moraes (“Tristeza”) passando por “Around the World”, do Daft Punk, “Wicked Game”, do Chris Isaak até chegar em “Show Me Love”, da Robin S.?
Pois bem, esse é o Erlend Oye. O ruivo mais lindo do mundo (dá licença?) veio com sua banda Whitest Boy Alive tocar aqui no Rio de Janeiro na sexta-feira, dia 11. E que banda! Em meio às inimagináveis versões citadas acima, eles tocaram faixas de seus dois álbuns: Dreams, de 2006 e Rules, desse ano. As músicas, que já tem um suingue incrível, de fazer inveja a muito samba-rock por aí, ganharam um peso incrível ao vivo. Ao vivo mesmo, porque até os elementos eletrônicos incluídos no show (que não estão nas versões de estúdio) foram feitos na hora, nada de bases pré-programadas. Aliás, deliciosa ironia o “garoto mais branco vivo” ter tanto balanço!
Para entender essa história, a figura de Oye é fundamental. Depois de passar por algumas bandas sem muito destaque, o norueguês conquistou o mundo com seu parceiro Eirik Boe, no Kings of Convenience, dupla que há três discos (Quiet Is the New Loud, 2001, Riot On An Empty Street, 2004 e Declaration of Dependence, 2009) fazem um som calminho, com pitadas de bossa nova e soft rock. Enquanto isso, fez featuring para, entre outros, os conterrâneos do Royksopp em 2001, nas lindas “Poor Leno” e “Remind Me”. A partir, começou um carreira-solo, com faixas sempre melódicas em parceria com uma galera muito boa da eletrônica ( Prefuse 73, Phonique, entre outros) e participações em produções como “Keep on Waiting”, do DJ Hell, por exemplo. O WBA tem seu início em 2003, como um projeto de eletrônica, mas aos poucos foi abandonando as picapes, até chegar ao resultado de Dreams, “acústico e dançante”, nas palavras do próprio Oye.
A banda dos caras é indie de fato: não tem empresário, eles cuidam de tudo; Rules foi gravado num estúdio montado na casa de um amigo no México e seu lançamento foi numa loja alugada por eles mesmos, onde venderam os discos por três dias, e ainda fizeram show. O selo também é deles. Como um sintoma do esgotamento das grandes gravadoras, eis uma banda que investe em shows de qualidade e numa relação mais direta com o público.
É esse tipo de coisa que faz de Erlend Oye uma espécie de símbolo da contemporaneidade. Ele vai do mais orgânico (voz e violão em baladinhas minimalistas) ao mais sintético (faixas cheias de elementos eletrônicos que a maravilhosa tecnologia nos forneceu), é nerd e cool, cult e pop, desajeitado e sexy, tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes nos perguntamos como será o futuro, ou o que vivemos hoje, e na música, esse questionamento é super-presente. Uma indicação pode vir desse exemplo: o tempo de grandes novidades e revoluções já passou, isso é coisa do século XX, do modernismo. Bom, já cansamos de ver a ideia de “evolução e progresso” dar com os burros n’água, né? Então talvez seja hora de contemplarmos a possibilidade de passear pelos múltiplos arranjos de identidade e símbolos da cultura, como faz tão bem nosso ruivinho aqui analisado. O temor de alguns, de que a globalização fosse produzir uma homogeneização sufocante, perde força quando prestamos atenção ao fluxo intenso de referências que caracteriza a atualidade. As categorias fechadas – novo/velho, branco/preto, sério/funny, rock/eletrônica, orgânico/sintético – não dão conta desse mundão cheio de som e fúria. Portanto, podemos relaxar e curtir, porque pra cada “retardada-Disney-Club” que tentarem nos empurrar, existirão outros Erlend Oye por aí, inteligentes e divertidos como nós.
