Na onda do retorno do Massive Attack, da volta “dicunforça” do Portishead e do questionamento sobre se “é valido ou não é valido’’(parafraseando Carlos Imperial) continuarmos usando o termo trip hop, quero apontar estas linhas pruma outra direção, embora aqui todos os caminhos nos levem a Londres.
O dubstep é o irmão do trip hop… nasceu no início dos anos 2000, na zona proletária de Londres, oriundo de uma junção do dub, com um drum’n bass desacelerado e algum garage house. Assim como o irmão, tem sua raiz na musica negra, mas foi “tomada de assalto pelos DJ’s brancos”. E, em especial, um deles chama muito a atenção de nossa equipe editorial desde o ano de 2009. Chama-se Burial, mas foi batizado William Bevan, um rapaz de Shouth London que pirou no Soundforge e produziu dois discos: Burial (2006) e Untrue (2007), ambos do selo Hyperdub, especializado no gênero. É sobre o segundo álbum que iremos tratar aqui.
Bem, o simples fato da fusão de ritmos aliado a samplers de diálogos de cinema em filmes como Inland Empire (David Lynch) e 21 Grams (Alejandro González Iñárritu), e ainda trechos de artistas como Beyoncé e En Vogue e o já citado Massive Attack + efeitinhos de videogame, já fariam o disquinho morar em nossos corações. Porém o que mais impressiona é o que dá toda essa massaroca de sons e ritmos.
O disco abre com uma faixa sem titulo (não por acaso batizada de “[Untitled]“), uma intro para aclimatar o ouvinte e dar uma atmosfera que combina bastante, aliás, com a arte da capa do disco. Segue com Archangel , faixa que mistura o vocal de Ray J. na musica ”One Wish“ com um sampler da abertura do game Metal Gear Solid. É como se tivessem injetado uma anfetaminazinha na Soundsystem Jamaicana transportando todo mundo através dos vocais etéreos. Essa serve tanto na pista quanto na reunião de amigos na sala de casa! (e nós somos testemunhas disso aqui, no “ilê do Orelha”… rsrs).
Na faixa quatro, “Ghost Hardware“ , contamos com samplers incríveis e inusitados: tem “Beautiful“, da Christina Aguilera, misturada com mais Metal Gear e trechos dos filmes Moça Com Brinco De Pérola e Metalheadz, o documentário sobre os Talking Heads… diz ai se não dá vontade de ficar tentando identificar cada elemento desses na musica agora? Rs
A faixa seis, ”Etched Headplate“ é minha favorita… menos pelos samplers, que dessa vez dizem respeito a India Arie e Amanda Perez, duas obscuras (pelo menos pra mim) cantoras de R&B americanas, mixadas com trechos de Sem Perdão, filme inglês dirigido por Saull Dib e que tem trilha de Robert Del Naja (já deu pra perceber a colegagem entre Burial e Massive Attack né?), e mais pela belíssima melodia de vocal acelerado e batida quebrada tão sensual que dá vontade de se esfregar todinho seja lá onde for.
Pulei da faixa quatro pra seis? Sim, mas eu nunca prometi um faixa-a-faixa… hehehe.
A faixa-título do disco usa Beyoncé em “Resentment” , mas ao invés de colocar a voz da cantora em toda sua virtuose, ele desacelera e transforma a “diva” numa espécie de “preto velho hype”. Na mesma faixa, está junto a cantora o ilustre desconhecido e “primo pobre e caipira do Jack Johnson” Ernie Halter, num “hit” (segundo o YouTube) chamado “Whisper“ . Se eu fosse o Ernie, eu bem chamava o Burial pra produzir meu próximo disco, visto que esta mesma musica é usada como sampler na faixa que segue, a deliciosa “Shell of Light“.
Na faixa “Homeless” , Burial se apropria do já citado En Vogue, com a suingada “Hold On“, e também de uma clássico da Motown na voz de Smokey Robinson, chamado “Who’s Lovin’ You”. Curiosamente, a mesma ”Hold On” do En Vogue cita em seu inicio a musica de Robinson… é a apropriação da apropriação! Não é o máximo?!
Pois é, você deve ter pensado que a equação de ritmos e referências descrita no titulo e em todo o texto deveria soar como algo ininteligível, né? Então taí o disco que funciona quase como uma tese comprobatória de que na matemática da música, cabe muito mais do que aquilo que se imagina.
Thiago Jatobá
