Aqui no Orelha, nenhum dos três blogueiros trabalha com música diretamente. Esse é um espaço de amadores (no melhor sentido), amigos que adoram música. Viemos de diferentes áreas e como sempre relacionamos música ao que fazemos, vamos agora inaugurar as colunas que abordam esses conexões. Antonio Kvalo é designer e estilista, portanto, assina a primeira coluna “Orelha que Veste”. Aguardem, para breve, “Orelha que Vê”, pelo profissional de cinema Thiago Jatobá e “Orelha que Pensa”, pelo estudante de ciências sociais Gibran Teixeira.
Orelha que Veste #1
Música sempre teve uma ligação com moda quase que inseparável. Movimentos musicais e moda de rua, trilhas e desfiles, bandas e grifes. O que vou tentar de maneira modesta é mostrar essa união em vários momentos históricos e falar um pouco sobre alguns pontos de vista.
Pra começar não posso deixar de falar de Vogue. Não só, única e exclusivamente a da Madonna, mas sim o movimento que invadiu a música no fim dos 80 e que tem seu começo nas pistas das boites gays da Big Apple.
Desde a década de 30 que negros americanos do Harlem dançam o que hoje chamamos de Vogue. Eram passos performáticos em casas de Jazz baseado em cenas de fotografia, com coreografias angulosas, pivôs e paradas estratégicas, quase que posando para uma câmera. Tudo numa linha “strike a pose!”
Muitos anos depois, já nos idos da década de 70, o underground gay de Nova York traz à tona novamente essa dança, agora batizada com o nome da revista de moda mais importante e influente do mundo, enquanto Djs começam a tocar house music. Vale ressaltar que isso era visto na cena afro e latino americana e que foi o produtor e cantor inglês Malcolm McLaren que colocou o Vogue no mainstream no seu quinto disco, Waltz Darling de 1988.
Em parceria com alguns produtores americanos, McLaren, que já havia começado um trabalho solo com elementos da cultura negra americana tais como hip hop e schratching, faz uma releitura de música clássica em seu disco anterior Fans. São clássicos utilizando bases e instrumentos eletrônicos com cantores de ópera dividindo espaço com rappers. Essa vertente lhe deu tantos frutos que em Waltz Darling ele mistura principalmente a valsa com techno pop e põe o hit “Deep in Vogue” nas mais importantes paradas de sucesso do mundo. A música narra os lugares em que o Vogue era dançado além de ser um pequeno relato do que ele próprio sentiu quando viu pela primeira vez tais coreografias.
Em clubes como Extravaganza, Magnifique, Ebony, entre outros mais, o Vogue era levado tão a sério que chegava a ter apresentações de seus freqüentadores beirando a shows! E para isso o visual contava muitos pontos, o que não era nenhum problema para o mais importante “voguering” de todos; Willi Ninja, que além de freqüentador assíduo da boite House of Ninja (daí o nome) esteve presente em quase todos os clipes do estilo e até em passarelas como a de Jean Paul Gaultier. “Ladies With an attitude”.
Somente um ano mais tarde que Madonna gravaria o que seria um de seus maiores sucessos e projetaria o Vogue de vez como um estilo musical da época, não necessariamente pela música, mas como uma maneira “estilosa” de se dançar. Depois disso um batalhão de bandas e grupos invadiram palcos com performances repletas de braços, pernas e muito carão!
Mas não só de América vive o Vogue, afinal Locomia esteve aí para provar que mesmo com bases na rumba, no samba e no mambo se faz uma boa performance.
Quem pensa que o Vogue morreu se engana. Segue uns links de como a coisa está hoje em dia, além de uns clássicos que devem ser vistos e revistos.
Malcolm McLaren – Deep in Vogue:
http://www.youtube.com/watch?v=a9KDmJQjS_0
Madonna – Vogue para Mtv
http://www.youtube.com/watchv=qK_dqFMgSS4&feature=channel_page
In memory of legend Willi Ninja – “Paris is Burning”
http://www.youtube.com/watch?=dFVpvKdsOOI&feature=related
Vogue hoje em dia…
http://www.youtube.com/watch?=aTZmK6BQzlo&feature=related
“Let your body move to the music…”
Antonio Kvalo
